Um Filme de Valentina Homem

Brócolis: transição, passagem, transformação.

Brócolis é um curta-metragem de ficção, de 15 minutos, B&W filmado em Super 16 e 16mm.

O filme é uma narrativa sobre a transformação, silenciosa, da personagem Noa, que se desenrola na intercessão entre o sonho e a realidade, entre o antes e o agora. É uma narrativa que permanece entre, que permanece em trânsito. O filme relata a experiência, ou a vida de Noa, no transcorrer de um dia, de algumas horas talvez. Um presente formado-informado pelo passado e pelo que virá depois. Noa é, como tod@s nós, uma criatura em processo. Brócolis é um recorte, um quadro em movimento, desse constante transformar-se.

O pensamento ocidental e a linguagem que o expressa tem dificuldades em definir e articular o entre, o trânsito – o que é agora mas também não é por que já está constante movimento, depois do antes e antes do depois. O cinza é a cor do trânsito que “acontece” quando se confunde a demarcação precisa entre branco e preto. O cinza é inconclusivo, não é facilmente distinguido.

O cinema, que se constrói a partir de imagens visuais e sonoras – como também o faz a poesia chinesa – abre, talvez, novas trilhas para explorar esse movimento – indistinguível e, no mais das vezes, invisível – que inevitavelmente nos arrasta. Entre o nascimento e a morte onde começa e onde termina a transformação? Ao explorar essa intercessão, Brócolis permanece em aberto, oferecendo ao espectador – seja mulher, homem ou pessoa trans – uma breve janela para perscrutar o entre.

Há pouco mais de dois anos, quando – depois de muitos anos dedicados à produção audiovisual no Brasil – decidi fazer um mestrado em cinema nos Estados Unidos, eu intuía mas não sabia exatamente o que me esperava. No dia seguinte à minha chegada à Filadélfia recebi do meu pai um email que dizia:

“Filhotinha, essa noite sonhei com você saindo do útero da tua mãe, nascendo. Acordei com a sensação de que tinha repassado o parto inteiro e acabava com você toda embrulhadinha, eu olhando fixo, fazendo carinho, dando beijinho e você dizia brocólis.”

O sonho não deu origem ao filme, mas de algum modo se misturou a ele porque anunciava a transformação radical que minha decisão implicava. Brócolis foi concebido e começou a ser realizado ao longo do meu primeiro semestre na Temple University, quando fui juntando fragmentos, ideias, lembranças, sonhos, imagens que seriam e integradas à composição de uma paisagem/processo – um filme.


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